quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ENSAIO SOBRE AS TROPAS: UM COMEÇO DE CONVERSA

Maíra Buarque e Sônia Nunes Mesquita

No encalço das histórias e memórias da região, o Ekos de Minas alcança as tropas e caminha ao lado de tropeiros e tropeços para lançar loas, desconstruir fatos e compor, à moda das lembranças, essa inequívoca homenagem aos homens do futuro, que carregaram sonhos e desejos, nas trilhas e rumos das Minas Gerais e do Brasil. Aqui, abre-se um apêndice das infinitas possibilidades das vidas e acasos das “marchas” que delimitavam os dias e duravam a eternidade do tempo, no ritmo das tropas e dos passos da humanidade.
Esta conversa apresenta as impressões de Mário Andrade dos Santos, tropeiro já falecido, que se por aqui estivesse teria 97 anos recém alcançados, no dia 1º de fevereiro. A entrevista com este personagem - realizada no dia 25 de julho de 2001 - é um presente dos arquivos de Sônia Nunes Mesquita, que permitem à memória e reflexão a abstrata sensação de vivenciar o intangível.
A percepção dos fatos começa sempre pela estrada a se percorrer. Um caminho empoeirado revela capítulos esquecidos das páginas da vida, uma paisagem de sonhos e de eternas lembranças, e registra Mário Andrade dos Santos, ex-tropeiro, um entre tantos desbravadores de dificuldades e caminhos, que contam o tropeirismo com a mesma emoção que se admira o brilho de um diamante na bateia. Ele explica que a tropa era composta por lotes, formados por, em média, dez burros e um cavalo madrinha. Acompanhavam a tropa (que poderia ter um ou mais lotes) o arrieiro, o cozinheiro e o tocador. A cada dia de viagem dava-se o nome de marcha; às grandes bolsas que levavam a carga, bruaca; e aos apetrechos utilizados no arreamento: cangalha, retranca, capa, cilha, cabresto, peitoral, jacás, rabicho. “No tempo dos tropeiros a vida era muito boa. A gente saía pelo interiorzão de Minas, em tropas grandes, levando feijão, “goma”, queijo e recados para o povo que vivia distante. Depois veio o carro e as tropas sumiram”, contou em entrevista o velho tropeiro.

No dia 27 de julho de 2001, foi a vez de conhecer João Emílio Pereira, ex-tropeiro como Mário, que só não levou toda a sua história quando faleceu, porque em um antigo disquete, Sônia Nunes Mesquita reservou impressões e sentimentos deste serrano, que já cruzou com onças, cobras e todo tipo de susto que reservavam as viagens com a tropa. De todas as regiões por onde passou, Curvelo é a que lhe traz as melhores recordações. Lembra das festas de São Geraldo, que participava com fervor das celebrações. O produto que levava para esta região era o café. Trazia caixas de cerveja, farinha de trigo, latas de querosene, açúcar e sal para o Serro.

E a história continua com Sebastião Ribeiro da Silva (à esquerda), hoje com 82 anos e muitas saudades das tropas. Sebastião conta que “puxava” milho, areia, tijolo “para estas casas todas aqui do Serro”. Com o pedreiro José Rabelo (chefe de caboclos de Nossa Senhora do Rosário do Serro, já falecido. Uma boa história para se contar!), Sebastião lembra que ajudou a construir a casa nº 26, da Rua Nagib Bahmed, no Serro, hoje residência da família de Walderes Ribeiro Miranda: “puxei o tijolo quase todo para construir esta casa”. Saudosista, Sebastião revive os bons tempos das tropas: “Quando viajávamos em direção a Diamantina, passávamos por um lugar que tinha muita lenha. Eu montava no cavalo que madrinhava a tropa e cortava feixes de lenha para colocar nos burros que já tínhamos vendido a carga deles. Chegávamos em Diamantina de manhã cedo, 5, 6 horas. Lá não tinha fogão a gás, então vendíamos os feixes de lenha, por 200 réis, o menor, e 400 réis, o maior. Com o dinheiro comprávamos pão quentinho!”.
Geraldo Azevedo Freire, no livro “Caminhos da Memória”, descreve o Mercado Municipal do Serro, no início do século XX, como “o ponto de maior movimento da cidade, das cinco horas da manhã até pelas seis horas da tarde! Durante o dia, era intenso o movimento na Cavalhada e por toda a rua, segundo creio, hoje denominada Antônio Honório Pires. Grande parte da praça, bem em frente ao Carmo, era o Carregador do Mercado, com inúmeras estacas onde se amarravam os animais. De segunda a sexta-feira, de manhã à tarde, chegavam e saíam os lotes, uns após os outros, naquele mesmo ritmo tranquilo e conformado dos que vão enfrentar grandes jornadas! (...)
(...) Em fins de 1929, o Mercado se mudou para a Praça Ângelo Miranda, indo se instalar no prédio novo, construído para tal finalidade - umas quatro vezes o tamanho do de lá da Cavalhada. (...) Até 1937, (...) era ainda significativo o movimento de tropas na vida da cidade e da região. Justamente àquela época, começou o roncar dos motores dos caminhões a sufocar, nas nossas estradas de eras coloniais, o relinchar tristonho e resfolegar ritmado dos penitentes burros e bestas dos nossos lotes!... O nascer das toneladas e o desaparecer dos quilos; o silenciar dos guizos e o despertar das buzinas; as patas pelas rodas; o tropeiro pelo motorista!”
Nos caminhos da memória, o Ekos percorre as histórias que narram vidas e acontecimentos e convida a ampliar o seu relato! Este é um enredo possível... que tal ser parte das possibilidades que ora se abrem? Envie fotos e relatos para o Ekos de Minas e seja parte ativa desta memória (ekosdeminas@gmail.com).



ABREM-SE AS CORTINAS


Senhora e senhores expectadores-aprendizes, o Ekos de Minas tem a honra de apresentar um exemplo de trabalho, dedicação e amor. Quem inspira esta abertura é o emocionado depoimento da amiga Rosinha Fagundes, que dedicou doçura e palavras solenes para homenagear este brasileiro como tantos, que afirmou seus passos com trabalho duro e uma crença: “o maior capital de um homem é o seu nome!”. O ilustre personagem que oferece sua experiência e sabedoria para sublimar as palavras que compõem esta entrevista é o segundo filho do casal Francisco José de Almeida e Ernestina Mafra de Almeida: Mário de Almeida. Nascido no município mineiro de Nossa Senhora do Porto, no dia 28 de outubro de 1918, Mário aprendeu com o pai os primeiros passos para uma vida de muito trabalho no campo. O amor, ele descobriu com sua “Diva” (Diva Pires de Almeida), aos 33 anos. E assim começa a história...

O começo
Nasci na Fazenda, mas meu pai vendeu a propriedade e, com 18 anos, caí fora. Queria ir para a Bolívia para trabalhar, como alguns companheiros que foram para lá, mas não deu para ir. Então fui para Caeté, trabalhar no alto-forno de ferro gusa, na Gorceix. Trabalhava só com serviço ruim. Então eu adoeci, fiquei com Tifo, e dois primos foram me buscar em Caeté, Geraldo Pires de Almeida e José Pires de Almeida. O mais importante é a quem eles me entregaram para ser cuidado em Belo Horizonte: Dr. Odilon Bérens. Dr. Odilon passava para me visitar, e olhava a medicação para ver se estava tudo certo: - Não fala que estou olhando a medicação. Saí uns dias antes de vencerem os dez dias que meus parentes pagaram no hospital, estava doido para ir para uma pensão e fui, ficava na Avenida Santos Dumont. Cheguei lá e a pensão estava paga por uns dias e tinha dinheiro também se precisasse. Fiquei até me curar e voltei para casa.

Trabalho
Já na região, um amigo meu, Celino de Ávila, que comprava ouro e diamante, mas o negócio estava ficando muito ruim, me convidou: - Mário, não estou achando pedra, diamante, nem ouro, você entende de gado? Eu falei: - Mais ou menos. -Vamos comprar gado de corte para levar e partimos o lucro para três. - Pode partir até para quatro! Vamos embora! E começamos. Depois o negócio ficou meio ruim, paramos, e comprei uma mula boa no Rio do Peixe (atual Alvorada de Minas). Os poderosos me ofereceram vaca: - Fiado eu compro, não tenho dinheiro não! Comecei a comprar para pagar na volta. Levava e vendia em Datas, sempre trinta vacas e tinha um companheiro que me ajudava. Vendia a dinheiro para os garimpeiros. Foi indo até que arrendei um pedacinho de terra. Depois comprei a primeira fazenda e comprei mais fazendas. Dei uma para cada filho. Tudo do meu trabalho. Então comecei com aluguel de casa.

O amor
Namorei uma moça bonita pra danar, estava com 20 anos. Não aguentei e a pedi em casamento, depois eu vi que não dava mesmo para casar. Felizmente, ela arrumou outro namorado bom para danar e se casou. Fui noivo de uma e casei com outra, 12 anos depois, mas namorada eu tinha muitas. Casei em 1951, foram cento e tantos cavaleiros. Dançamos a noite inteira. Essa eu não esqueço, lembro tudo, tim-tim por tim-tim. Nem posso contar tudo! Com vinte dias de casado estávamos em Belo Horizonte, ela com um cachorrinho e eu com um Código Civil debaixo do braço. Com um ano veio o primeiro filho. Tivemos cinco filhos. Fizemos bodas de ouro. Vinha tudo muito bem, mas depois que a Diva morreu mudou tudo. É tanto que eu tenho que estar trabalhando, dormindo ou ouvindo música, pensando na vida, dá vontade de sumir também. Ela fica nas minhas vistas, não sai. Ninguém acostuma com a morte, viu. Nem ficando como eu fiquei,14 meses, cuidando dela, sabendo que ela ia morrer. Eu me lembro do pai dela namorando a mãe. Eu ia pensar que eles iam arrumar uma filha para eu casar com ela? Peguei-a, com 18 anos, namoramos e casamos no dia 31 de julho de 1951, eu estava com a idade de Cristo, 33 anos, e Diva com 19. Sabe por que 31 de julho? Ou casava em setembro ou no fim de julho, que em agosto eu não ia casar!

O pedido
Eu tinha um primo, Geraldo de Almeida, que já morreu. Eu pedi casamento para ele e ele pediu para mim. Ele trouxe a resposta e começou a me contar como foi lá. Está tudo gravado, não esqueço, não. O Chico (Francisco Pires de Almeida), pai da Diva, chamou a Ester (Ester Pires de Oliveira) e disse: - Geraldo está aqui, pedindo Diva em casamento que Mário mandou. E a Ester falou: - Ela gosta muito dele. Ele, se está pedindo, é porque gosta muito dela. Ela está com 19 anos, idade para casar, e ele já passou! Conhecia a Diva desde menina, quase na barriga da mãe dela, mas me interessei por ela uma vez, comprando gado do Chico, comprei caro pra danar! Quando eu vi a Diva pensei, não vai ter jeito não. Com seis meses de namoro, pedi em casamento.

O Serro
Formei uma fazenda no município de Sabinópolis, em 1946, Fazenda São José do Quilombo, e desenvolvi muito. Houve certa ambição, tal coisa e tal. E teve alguém que aconselhou os outros a me amolar e tive que contratar advogado, teve até policia, mas provei que não tinha nada. Pensei bem: - Eu aqui estou sendo meio invejado e isso é ruim. Troquei a fazenda de lá por uma no Serro em 1958. Eu não queria brigar com ninguém.

Caráter
O maior capital de um homem é o nome dele. O sujeito deixava de vender para um rico para vender para mim, quando era o caso. Trinta dias não são trinta e um dias para pagar. Nunca perdi dinheiro em nada! Estou aqui com 93 anos e ninguém aqui trabalha mais do que eu! Para os meus filhos não dou conselhos, dou exemplo. Faz o que eu fiz que vai dar certo. Trabalhar e andar direito. Não minto também não. Um homem não precisa mentir. Mas também tem uma coisa. Eu não esqueço o bem que me fazem não. Graças a Deus sou muito feliz com as amizades. Graças a Deus tenho que dizer que sou um homem feliz e realizado. Amizade ninguém tem mais que eu. Não posso sair a pé, custo a chegar ao fim da rua!


Mário e Diva em Lua de Mel na Capital


 

OBRIGADA! É PRECISO AGRADECER!

Maíra Buarque

É preciso dedicar breves sussurros a agradecer. Engrandecer, ampliar as orações aos domínios do infinito. Decifrar o caos na inércia imprecisa da recusa. Reconhecer a interferência, incongruência, independência das palavras impensadas, ditas ao acaso, amorfas, destinadas a padecer. Agradecer! Obrigada! Assim é preciso me referir à grata satisfação de sentir-me merecedora de um dos preciosos exemplares da obra dedicada à memória dos momentos e histórias que tangenciam incontáveis vidas. Elóquios: Memórias das páginas que não rasguei, de Feiz Nagib Bahmed, é obra digna de permanecer, como devem estar intactos na memória dos que puderam ouvi-lo, os ecos das intensas e bem coordenadas ideias de seus elóquios.
Agradecer este raro presente de qualidade editorial incontestável, brilhante compêndio de conhecimento e absoluto domínio dos recursos da oratória e de nossa língua mãe, instiga reflexões e crenças. Palavras insistentes invadem os breves espaços comumente ocupados por corriqueiras indagações. Insistem em inspirar a inevitável gratidão ao ser escolhida para percorrer os caminhos desta obra oponente e delicada.
As memórias deste grande mestre convidam a agradáveis passeios por Belo Horizonte, cidade que acalentou meu berço e acompanhou meus passos até que alcancei a firmeza de caminhar para os meus sonhos. E ainda assim, encontro o inédito em seus relatos, uma BH que não vivenciei, na efervesceste Pampulha de outrora, nos espaços gentilmente cedidos em grandes avenidas para footings, encontros e bem-viver.
A Vila do Príncipe se mostra em todo seu esplendor, retratada na riqueza dos personagens nascidos nesta terra, que doou seu opulente brilho dourado à coroa portuguesa e, quando as jazidas minguaram, despertou o inexorável rútilo de seus filhos para Minas Gerais e Brasil.
Nas suas palavras encontro este Serro que o acaso me apresentou como futuro e onde recebo o privilégio de apreender a indelével arte de viver o cotidiano das pequenas cidades.
Este Serro que não é mais do ouro metal, guarda em seu legado grandes personagens históricos e admiráveis cidadãos e cidadãs contemporâneos que revivem e reascendem a vocação serrana de doar filhos ao país e inspiram a intenção humana nas artes, letras, política, economia, sociedade, religião em tantas caminhadas pelas Minas Gerais, Brasil e limites além mar.

A HISTÓRIA QUE REGISTRA O OLHAR

No espaço, a partir do tempo, desatino, afino, inclinação, assim se define o olhar. Com ponto ou sem ponto final, as palavras insinuam sua aplicação, encontram momentos de intempéries e ressacas para indicar vontades, anseios, reflexões. O olhar saciado se entrega ao que não vê. O olhar desavisado encontra. Olhar, gostar, deleitar, adorar, abre-se aqui o espaço para o que se vê.
Nesta edição, o Ekos de Minas apresenta uma das delícias do verbo ver, a obra do artista serrano Magno Zeó - a história de Magno Wanderlei de Figueiredo, artista de sensibilidade excepcional, é um estímulo à composição e um desafio para as próximas edições deste periódico.
A pintura é uma encomenda do amigo Lúcio Flávio Reis Simões. «Saíamos bicudos do Bar do Nondas, e pedi ao Maguinho que pintasse um quadro do Serro com o caminho do bar à minha casa e os pontos marcantes da nossa adolescência: o Colégio (Nossa Senhora da Conceição), a (Igreja) Santa Rita, a Pedra Redonda e as pipas», conta Lúcio.
O quadro foi pintado em 1994, e atendeu à encomenda de Lúcio Simões, observando o percurso do Bar de Nondas (Restaurante Vila do Príncipe), então instalado na Praça Dom Epaminondas, à casa de seus pais Rômulo e Carmosina Simões, na Rua Fernando de Vasconcelos.

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA!

E é bom preparar o riso! A conversa com Antônio Farnesi, publicada na edição nº5, não podia resumir-se ao espaço dedicado às entrevistas. O repertório deste ilustre e querido personagem serrano extrapola o limite das páginas do Ekos de Minas e traz mais contos a este espaço que ora se inaugura para contar histórias que não devem e não podem ser esquecidas! Prepare-se que lá vem história!

Quando fui sacristão (na época em que Dom Geraldo Vieria Gusmão era o pároco no Serro), o Padre me pediu que o ajudasse, porque muitas pessoas queriam se confessar antes da missa e isso estava atrasando a missa. Nisso, chegou uma senhora querendo se confessar, e eu falei: - Domingo passado foi o último que ele atendeu. Não atende mais porque está atrasando um pouco a missa. Ela insistiu, disse que precisava comungar. E eu falei: - Pode ser que seja uma coisa mais simples, e não tem problema. - Não é mesmo coisa complicada, não, ela respondeu. Domingo passado eu estava saindo para vir à missa e um compadre meu chegou, ficou num conversê e acabei perdendo a missa. Eu disse: - Absolutamente! A senhora pode comungar tranquilamente, porque na verdade a senhora pecou por não vir à missa, mas acontece que este pecado está nas costas deste que atrapalhou a senhora! A senhora, não. Pode rezar um Padre Nosso e uma Ave Maria e comungar tranquilamente!
Outra. Quando ajudava Dom Gusmão, muitas vezes íamos celebrar casamentos. Depois da celebração, eu falava: - Padre, o casal mandou falar com o senhor que a festinha é simples, mas conta com a presença do senhor e a minha também. Um dia, Adelmo Lessa (serrano, amigo de Antônio Farnesi e um bom personagem para o Ekos de Minas!) chegou para o Padre e falou: - O senhor sabe muito bem que está entrando numa gelada horrorosa. O Antônio Farnesi é descarado. Ele adora comer e beber e está levando o senhor em muito casamento que não foi convidado! Ele que se convida e leva o senhor, para aproveitar o carro. No próximo casamento, ajudei o Padre a tirar a túnica e a estola, e falei que estávamos convidados para a festa. Ele disse que não ia: - Adelmo falou comigo que o senhor está me levando nas casas sem ser convidado. Eu disse: - O que é isso seu Padre! É inveja de Adelmo! Conversa fiada de Adelmo! Mas não adiantou nada, o Padre não quis mais me acompanhar!



ARTIFÍCIO - Fotografia

Danilo Arnaldo Briskievicz
As flores e plantas serranas são uma mistura do local com o nacional e mundial. Há flores e plantas típicas da Mata Atlântica. Há flores e plantas que podem ter vindo de qualquer lugar do mundo. Entre plantas e flores nativas e trazidas no lombo do burro, depois de chegadas aos portos brasileiros em quatro séculos de história, os jardins serranos foram se constituindo numa arte própria. É uma profusão de cores que encanta os olhos de quem se dedica à fotografia. Ou mesmo àqueles que ficam boqueabertos com a quantidade de cores que habitam um simples jardim na porta de casa. Há os quintais repletos de figueiras, abacateiros, mangueiras, coqueiros, pessegueiros, jabuticabeiras. São tantas variedades espalhadas pela cidade!
Os bichos também são uma mistura inacreditável. Eles habitam os rios, as casas, as praças, os jardins. Em qualquer lugar pode-se achar o inusitado. Apesar de toda a devastação da Mata Atlântica ainda podem-se ver os bichos resistentes. Os cachorros serranos são um caso à parte: são os mais rústicos, os mais leais e os mais maltratados. Abandonados nas ruas incorporaram-se à paisagem urbana. Antes necessários para a caça, hoje são relegados a seres que tem vida própria e, claro, não tem. Os donos omissos permitem que eles reproduzam à vontade e sem controle da municipalidade. Com isso, vivem pouco. Mas dormem nas praças, na rodoviária, nas calçadas do comércio e das casas e são sempre simpáticos.
As cachoeiras sintetizam a beleza da flora e da fauna da região serrana. Ao visitar a Ponte de Pedra em Santo Antônio do Itambé a sensação é de uma volta no tempo. Água gelada que desce do Pico do Itambé e sustenta toda uma cadeia alimentar até chegar aos seres humanos. A quantidade de água que provem do Pico do Itambé é uma festa para a natureza durante todo o ano, mesmo na seca.
Publicamos esse trabalho com o título de Artifício para provocar a reflexão. Os jardins não são naturais: são invenção humana. Os bichos reproduzidos na cidade incorporaram-se ao dia a dia das pessoas. A cachoeira, hoje, é um ponto turístico. Então, o que há de natural? Tudo na relação do homem com a natureza é um Artifício para viver melhor.
Portanto, a fotografia é um artifício. É a ampliação do olhar. Convidamos você a olhar a natureza/humanidade nas fotografias realizadas no Serro e em Santo Antônio do Itambé de janeiro a julho de 2011.








DANILO ARNALDO BRISKIEVICZ

nasceu no Serro, Minas Gerais, em 1972. Filósofo, poeta, historiador e fotógrafo amador. Professor universitário dedica-se ao registro da história serrana através de livros impressos e em formato e-book que podem ser baixados gratuitamente no site do autor.

Artifícios - Fotografia - 2012
www.recantodasletras.com.br/e-livros/3445924

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Menina Branca também é gourmet!

Hummm!!! Esta é a melhor expressão para definir a requintada apresentação de sabores da 4º Edição do Cachaça Gourmet Belo Horizonte. A festa de lançamento foi realizada na Cozinha Modelo do Mercado Central, no dia 12 de dezembro, e reuniu uma competente seleção de restaurantes da capital. A cachaça de alambique é quem dá o tom e oferece charme à proposta gourmet, em perfeita harmonia com os sabores inusitados dos ingredientes, selecionados pelos chefs convidados, de efeito gastronômico, no mínimo, intenso.
E, claro, a Menina Branca estava lá para valorizar o Risoto Tonto, uma criação do Chef Anderson Salvador, do Café Club, com a colaboração da Chef Manu Assunção.
A rica iguaria poderá ser saboreada durante o Cachaça Gourmet, de 10 de janeiro a 10 de fevereiro de 2012, no Café Club, charmoso restaurante de BH, com a inebriante companhia da cachaça Menina Branca!

A Menina Branca é o ingrediente especial do Risoto Tonto, criação
do Chef Anderson Salvador, do Café Club

A Menina Branca posa para foto com grandes nomes da
gastronomia mineira, no lançamento do Cachaça Gourmet 2012:
Vinícius Salomão, restaurante Mané e Maria, Márcia Clementino
Nunes, do Dona Lucinha, e Murai Caetano, do Xico da Kafua

Dona Lucinha e Marcelo Machado, produtor da Menina
Branca, brindam o lançamento da Cachaça, no Restaurante
Dona Lucinha, em outubro deste ano

TEÓFILO OTTONI: HISTÓRIA QUE VEM DO SERRO!

Quem foi mesmo este Teófilo Ottoni? Deve ser importante porque tem até nome de cidade! É assim que o brasileiro comum costuma se referir à memória de seu país. E não é por desleixo, não, é pura luta pela sobrevivência. Conhecimento precisa de ócio. Não dá para conhecer sem ter tempo para escarafunchar livros, escritos, Internet e outros bichos. Tudo isso sem grana e depois de um dia daqueles, definitivamente não dá. Fica a cargo da escola transmitir o que não é possível experimentar espontaneamente... bom, já deu para entender porque muitas vezes existe um amplo desconhecimento dos fatos e histórias que rondam a singularidade brasileira.
Mas por que falar de Teófilo Ottoni? É bastante oportuno, já que no dia 28 de novembro deste ano foi realizada, no Serro, Minas Gerais, a cerimônia de entrega da Comenda Teófilo Ottoni a 30 brasileiros indicados em 2011 e outros quatro indicados em anos anteriores. Instituída pelo Governo de Minas em agosto de 2007 - ano em que foi comemorado o bicentenário de nascimento do libertário -,  a honraria presta homenagem a personalidades ou instituições que “contribuem com o desenvolvimento político, cultural, econômico e social das regiões dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri, Norte e Nordeste de Minas”.
E por que Teófilo Ottoni? Para entender a sua importância no contexto nacional, é preciso primeiramente situá-lo historicamente. Theóphilo Benedicto Ottoni nasceu no Serro, em 27 de novembro de 1807, e faleceu, em 17 de outubro de 1869, no Rio de Janeiro. Em sua época, existiam dois partidos políticos no Brasil, o Conservador e o Liberal. Os conservadores defendiam a centralização do poder na figura do Imperador D. Pedro II, enquanto os liberais defendiam  a autoridade e o fortalecimento dos poderes das províncias e dos municípios, mais sensíveis às reivindicações populares. Teófilo Ottoni foi um dos líderes da Revolução Liberal de 1842, em Minas Gerais, derrotado em Santa Luzia  pelas tropas de Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias.
Discurso inflamado, pena afiada, escreveu para vários jornais e publicou o Sentinella do Serro, na linha do jornalista revolucionário Cipriano Barata. Em 1847, realiza a primeira viagem ao Vale do Rio Mucuri e funda a Companhia de Comércio e Navegação do Rio Mucuri, cujo objetivo principal era ligar o centro-oeste da Província de Minas Gerais ao litoral. Em 1853, iniciou o processo de exploração e colonização do Vale do Mucuri, fundando Filadélfia, hoje município de Teófilo Ottoni. Foi eleito algumas vezes para o Senado, mas somente conseguiu empossar-se senador depois de 1864, quando os liberais já contavam com a simpatia de Dom Pedro II. Nessa época, no entanto, já se encontrava cansado, sem recursos e com a saúde debilitada.
Está aí o porquê da Comenda Teófilo Ottoni e a relação dela com o Serro. A cerimônia foi presidida pela Secretária de Estado da Casa Civil e Relações Institucionais, Maria Coeli Simões Pires, no auditório da Pontifícia Universidade Católica, no Serro. A Secretária Maria Coeli, serrana agraciada com a medalha em 2007, ressaltou a importância da Comenda, criada com o objetivo principal de resgatar a memória do político e empreendedor Teófilo Ottoni. “Essa comenda faz justiça ao grande homem que foi Teófilo Ottoni e reacende a veia política não só dos serranos e também dos mineiros que se identificam com a bandeira da liberdade. Os homenageados estão comprometidos com a liberdade, os direitos fundamentais e o empreendedorismo”, ressaltou Dra. Maria Coeli, em seu pronunciamento.

Magda Mesquita Machado e Dr. Walter Machado

Entre os homenageados, importantes personalidades como Dr. Walter Machado, médico nascido em Piranguinho, no sul de Minas, que adotou o Serro como sua terra e há mais de 50 anos dedica seu talento profissional à região. Nesta longa trajetória, muitas famílias podem dizer que pais, filhos, netos e até bisnetos nasceram pelas mãos de Dr. Walter! Para arriscar um palpite, Dr. Walter estima que fez mais de cinco mil partos e incontáveis cirurgias apenas na Casa de Caridade Santa Tereza,  Hospital do Serro. Entre eles, os partos dos três filhos e de quatro dos cinco netos. “Esta homenagem me emociona pelo reconhecimento de um trabalho que realizei por amor à profissão”, aponta.
O juiz Márcio Idalmo entre suas ex-professoras,
Gracíola Terezinha Simões e Maria Isabel das Graças
de Almeida (E), e a mãe Maria da Conceição Santos

O Juiz Márcio Idalmo Santos Miranda, filho do Serro, também está entre os homenageados com a Comenda em 2011. Ele conta que, mesmo o destino tendo conduzido seus passos a outros horizontes, distantes das montanhas serranas, o Serro é a sua grande referência: “Os valores e princípios que recebemos em nossa terra nos guiam por toda a vida. Voltar às raízes serranas é sempre uma necessidade, uma busca de inspiração e de renovação de forças”.
Para o magistrado, a atuação de Teófilo Ottoni no cenário político nacional teve mais importância do que hoje se lhe atribui: “A Revolução Liberal de 1842, que o teve como líder, foi um dos embriões da República. Teófilo Ottoni, em seu discurso, em seus ideais e na sua prática de vida apregoava princípios republicanos. Foi um exemplo, para todos nós, como brasileiros. Foi alguém que nós, especialmente os serranos, devemos reverenciar sempre. Receber essa homenagem tem um significado ainda mais grandioso pelo vulto que a inspira”, completa. 

Os desembargadores Beatriz Caires e Tiago Pinto
A Desembargadora Maria Beatriz Madureira Pinheiro Costa Caires ressalta que a honraria a emociona como integrante do Poder Judiciário mineiro - juntamente com os Desembargadores Manuel Saramago e Tiago Pinto e o Juiz Márcio Idalmo - e também como uma homenagem às suas raízes serranas. “Tudo que é ligado ao Serro tem um significado muito especial para mim, toca o meu coração. Cresci ouvindo o hino do Serro ser cantado com orgulho nas reuniões familiares; me acostumei a ver a pintura da Igreja de Santa Rita na parede das salas das casas de meus avós, de meus pais e tias. Escutei as muitas histórias do povo Serrano, recheadas de religiosidade. A comenda significa um resgate destas raízes, da minha história, das famílias Silveira e Madureira Horta, que remonta ao patriarca Professor Madureira, meu bisavô, e a João Gabriel da Silveira Serrano, meu avô. Por tudo isto, só tenho a agradecer! Obrigada aos Serranos!”.
Duas instituições também foram homenageadas com a Comenda: o Jornal Estado de Minas e a Associação dos Produtores Artesanais de Queijo do Serro, entidade com sede no Serro que se dedica à valorização do queijo artesanal. O presidente da Apaqs, Jorge Brandão Simões, que representou a entidade na cerimônia, acredita que a Comenda valoriza não só o trabalho da Apaqs, mas o seguimento que ela representa: “É um reconhecimento do Governo do Estado pelo esforço dos produtores no processo de valorização do Queijo Minas Artesanal”.
Entre outras importantes personalidades, foram agraciados com a Comenda Teófilo Ottoni o empresário serrano Vicente Nunes Mourão; o Médico Veterinário Mendelssohn de Vasconcelos e a Capitã PM Tânia Augusta da Silva. A Capitã Tânia conta que ser homenageada com a medalha tem um significado especial, já que o Serro foi a primeira cidade em que teve a oportunidade de ocupar um posto de comando na Policia Militar de Minas Gerais. “Quando estava no Comando da 144ª CIA pedia sempre a Deus forças, nosso trabalho não é fácil, Ele me dava problemas. Pedia amor, e Ele me dava pessoas que me ajudaram. Aprendi muito e, com a graça de Deus, venci. Não recebi de Deus o que eu pedi, mas o que precisava”, agradece.

O homenageado Vicente Nunes Mourão, ao lado da
filha Ariadna Lemos Nunes de Moura e Silva, Maria
dos Anjos Brandão Simões e Jorge Brandão Simões

A Capitã Tânia foi Comandante da 144º
Companhia de Polícia Militar, no Serro

O Médico Veterinário Mendelssohn de Vasconcelos,
 filho do saudoso Newton Vasconcelos, foi um dos
agraciados com a Comenda em 2011

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA!

“Terminal Rodoviário, passageiros, motoristas e trocadores, boa viagem, vai com Deus homem da alavanca” Assim este serrano, nascido em 28 de abril de 1958, convida os passageiros que partem em diferentes direções a encontrarem seu destino, sem deixar de brincar com os motoristas, que sempre têm um apelido inventado por ele e proclamado ao microfone. Com bom humor e gentileza ímpar, Antônio Farnesi coordena os rumos da Rodoviária do Serro, mas faz muito mais: presidente de Banda de Música, Sacristão e, acima de tudo, um sábio que conhece como ninguém a simplicidade da vida e a melhor maneira de agradar ao outro. Vive no Serro “os mesmos anos que tem de idade”. Conhece diversos lugares, já passeou muito, mas não sai do Serro para nada. “Aqui nasci, fui criado, enterrei meus pais e pretendo ir daqui para o cemitério”. Nesta edição, o Ekos de Minas apresenta um pequeno pedaço do universo repleto de alegria e sabedoria de vida de Antônio Farnesi, um serrano da gema que ama o Serro e a sua história como poucos e ensina em cada sorriso e boa prosa um pouco do segredo de bem viver. 

Lição de vida
A vida é o seguinte: se ela for só boa, pode ficar tranquilo que vai aparecer uma novidade qualquer. Se for só ruim, pode ficar com esperança, que amanhã vai dar certo. Aceito a vida como ela vier. Eu gosto sempre de me manter alegre e satisfeito. Sou muito bem humorado, faço de conta que não entendo as ofensas para não levá-las em consideração. Adoro levantar o astral de qualquer pessoa, adoro destacar a pessoa. A coisa mais triste do mundo é falar uma coisa desagradável. Não é tudo que a gente leva em consideração, principalmente no mundo em que vivemos, muita raiva, revolta. Levo a vida da melhor maneira possível. Um exemplo: um sujeito muito pobre, muito pobre mesmo, ao ponto de passar fome, morava perto da minha casa. Ele roubava banana no meu quintal, vendia para mim e eu comprava. Sabia de tudo. O que custa comprar minhas bananas para ajudá-lo? Ele precisa!

Infância
As nossas brincadeiras na época eram carrinho de direção, empinar pipa. Papai era muito caprichoso e fazia uns carrinhos lindos para mim. A gente descia nas laterais da escadaria da Santa Rita. Descia embalado, e quando queria parar vinha cavucando a terra. Papai tinha uma barbearia lá perto. Meu pai fazia tudo por mim, eu era filho único, ele me amava. Era um pai que, apesar de ser barbeiro, fazia tudo de madeira. Uma vez eu comecei a pirraçar porque queria um carrinho de direção. - Meu filho, não tem madeira! Insisti. E o que ele fez? Tirou uma porta da casa e a transformou em um carrinho para me satisfazer. Para o gosto dele, eu não tinha casado nunca. Nenhuma moça servia para ele. Nada que eu tivesse na cabeça de casar ou progredir na vida papai aceitava porque ele tinha medo de eu sair do Serro. Ele me travava em tudo!

Rodoviária
O Prefeito Dermeval Magalhães era muito amigo do meu pai e me conseguiu um emprego na Praça de Esportes. Quando cheguei lá me puseram para capinar. Nunca na minha vida eu tinha mexido com ferramenta nenhuma. Machuquei a mão toda. Falei: -Pai, eu não vou ficar não. - Por que meu filho? Me puseram para capinar e eu não estou aguentando. Papai falou com o Prefeito e ele disse: -Meu Deus, aquilo não é menino para capinar! E passou uma ordem que não era para eu pegar na enxada nem para carregar! Aí fiquei alegre demais! Depois fiz um curso de guarda bancário e fiquei oito anos no Banco Real. Quando o Banco fechou, quiseram me aproveitar fora, mas eu não quis. Então o Prefeito Waldemir Mesquita me retornou à Praça de Esportes. Um dia, Waldemir me pediu: -Amanhã vamos inaugurar a Rodoviária e preciso dos seus serviços. -Perfeitamente, respondi. Na inauguração da Rodoviária, peguei o microfone e comecei a dar partida nos ônibus, desejando boa viagem e tal. Waldemir então falou: -Você me agradou muito com a sua iniciativa, não volta mais para a Praça de Esportes, está aqui definitivo. Voltei na Praça de Esportes só para buscar meus teréns. Isso tem 32 anos.

Família
Ficamos eu, meu pai e minha mãe juntos a vida toda. Minha mãe faleceu de câncer, quando eu tinha uns 16 anos, e ficamos eu e meu pai. Um dia, meu pai morreu. Fiquei sozinho. Meu pai faleceu em 7 de janeiro e me casei em 20 de setembro do mesmo ano. Casei-me com Maria José aos 25 anos. Depois minha esposa apaixonou-se pelos Estados Unidos e quis mudar-se para lá. Desejei que fosse com Deus, porque do Serro não saio. Tenho três filhos maravilhosos. Minha caçula me liga duas, três vezes por dia. A outra me liga menos, mas nos falamos muito. Hoje, minha esposa vem ao Brasil e somos amigos, ela fica na minha casa, não desquitamos nem divorciamos, o que é dela é meu, o que é meu é dela e pronto acabou. Eu e meus irmãos - porque eu tive irmãos, mas morreram - fomos fabricados na mesma casa que os meus filhos! Onde nasci, meus filhos foram inventados.

Banda de Música e Procissão
Toda vida gostei muito de comer e beber. Nunca deixei de ser convidado para nada, graças a Deus. Sempre gostei e gosto até hoje de festa de aniversário, de casamento, de festas religiosas, principalmente as que tenham banda de música. Gostava muito de música, mas não consegui aprender um instrumento, pelejei, mas não consegui, então, resolvi apreciar. Fui sacristão de Igreja por quatro anos. Uma vez o Padre pediu que eu organizasse a procissão até ele chegar. E durante a procissão tem um momento para a Banda de Música, os cânticos e o terço. Para a Banda tocar mais, aproveitei que o Padre não estava lá e dei um aviso: -Nós vamos sair agora, o Padre deu ordem para sair, mas não vamos rezar o terço. Assim me obedeceram. O Padre chegou todo apavorado: -Gente, cadê o terço? Responderam: -Antônio Farnesi falou que não tem terço, não. O Padre: -Mas Antonio, como é que o senhor faz isso? Respondi: -Aproveitei que o senhor não estava e deixei o terço para depois, para a Banda tocar mais. Na época, o Padre era Dom Geraldo Vieira Gusmão, hoje ele é bispo e fui a Belo Horizonte para a sua celebração de 50 anos de ordenação sacerdotal recentemente.
Outra de procissão. Tinham uns apelidos aqui no Serro que não podiam ser falados que dava muito problema. Tinha um sujeito que toda procissão carregava o guião - pendão ou estandarte que vai à frente das procissões. E ele tinha o apelido de limonada. Quando a procissão passou perto do Ginásio, a molecada já sabia, e um gritou: -Água. Outro respondeu: -Limão! O outro gritou: -Açúcar! -Se “musturá” eu largo essa desgraça aqui! Num “mustura” não! E a desgraça era a cruz. E não é mistura, é “mustura”. O pessoal gostava de mexer com ele na procissão, porque na rua ele corria atrás dos outros, jogava pedra.